Chega de Mimimi

Publicado em Cotidiano
Chega de Mimimi

Se em 2013 o Brasil se dividiu por causa dos protestos políticos, em 2017 a divisão já está bem mais ramificada em esquerda e direita, coxinha e petralha, politicamente correto e incorreto, comunista e fascista, liberdade de expressão e mimimi. Independente do lado que você se coloca, tenho certeza que escutou nas últimas semanas algumas dessas expressões: apropriação cultural, representatividade, objetificação, machismo, misoginia, problematização, minorias, gordofobia, homem branco cis hétero, feminicídio, patriarcado, empoderamento, etc. E nessa mesma conversa, provavelmente alguém soltou a famosa frase: “isso é tudo mimimi!”

Tá bom, nós sabemos que todos esses termos estão saturados e que são usados em textões que você não tem paciência de ler, além de serem debatidos em ambientes muito específicos, como faculdades de humanas e rodas de jovens alternativos. E mais uma vez, como a esquerda nunca soube se comunicar bem com a massa, isso chega através da TV e da mídia em geral de forma superficial para a maioria da população, que não faz parte desses núcleos.

Mas o que define o que é “mimimi” e o que não é?

Pode ser que não haja uma definição no dicionário, mas basicamente mimimi (ou vitimismo) são todas as discussões que você não entende o propósito. Principalmente se você se enquadra de alguma forma nas questões levantadas, mas nunca precisou pensar muito a respeito, seja por ignorância, por reproduzir atos e discursos de outras gerações ou por falta de vivência. Ou só por falta de empatia mesmo.

No meio disso tudo, fica difícil distinguir se quem está sendo chato é quem levanta a discussão ou quem aponta o mimimi. Ainda que de forma saturada, aquela pessoa que está discutindo racismo, machismo ou outras injustiças sociais, está buscando expor e questionar pontos importantes do status quo. Quando colocam a discussão em segundo plano para atacar o representante da causa com um argumento tão fraco como “isso é tudo mimimi“, aumenta ainda mais a distância entre as pessoas e esses temas. Muita gente vai preferir concordar com quem reclama das discussões do que entender o que está sendo debatido. E com isso todo mundo sai perdendo.

Nessa onda de protestos neonazistas, o que mais tem sido visto são pessoas, que frequentemente tentam silenciar as outras desvalorizando e ridicularizando seus argumentos, clamando por liberdade de expressão para discurso de ódio. Vale lembrar que vitimismo mesmo é quem acha que sofre racismo inverso, cristofobia, heterofobia e misandria. Fica mais fácil tentar se colocar como vítima do que assumir o lugar de privilegiado e/ou agressor.

De fato, ainda temos muito o que aprender e questionar a respeito de tudo que está acontecendo no mundo, inclusive sobre os limites e extremos de cada lado, seja na internet, no trabalho ou nos almoços de família. O mais importante é que ainda que você esteja de saco cheio dos SJW – Social Justice Warriors (Guerreiros da Justiça Social) ou dos Defensores dos Direitos Humanos, mais chato ainda é passar por situações de desrespeito, agressões físicas e morais, relacionamentos abusivos, discriminações sociais e raciais, homofobia e bullying em pleno 2017, uma época com tanta informação disponível e tanta gente disposta a debater sobre isso.

A ignorância mata desde muito antes da Inquisição, então não silencie quem bota a cara a tapa e luta por um mundo menos desigual.

Os Postais da Olga

Publicado em Cotidiano
Postais da Olga

Em 2013 eu fui fazer um intercâmbio na Oceania. Lá na Nova Zelândia, no país dos hobbits e do rugby, eu conheci a Olga, uma menina de Moscou que foi morar na mesma casa de família em que eu estava hospedado.

Olga ficou apenas um mês em Auckland, a maior e mais famosa cidade da Nova Zelândia. Estudávamos na mesma escola e morávamos na mesma casa, então eu era quase como um irmão mais velho dela (não tão mais velho, pois na época eu tinha 22 anos). Como todos os intercambistas eram muito próximos, também estávamos no mesmo círculo de amizades e ela sempre foi muito simpática e divertida com todo mundo – enquanto eu sempre fui o ranzinza chato, até mesmo em inglês.

Assim como aconteceu com a maioria esmagadora dos amigos que fiz em outros países, acreditava que perderia o contato com a Olga logo que ela fosse embora. Mesmo que continuássemos curtindo fotos uns dos outros no Instagram e no Facebook, dificilmente passaria disso para uma conversa maior.

O que eu não previa era que a Olga teria um hábito quase peculiar nos dias de hoje: enviar cartões postais. Talvez seja um costume dos europeus, não sei, ou só algo que ela goste de fazer mesmo. Já conheci pessoas que fizeram intercâmbio bem antes de mim, numa época antes até da internet, e que mantiveram contato com os amigos estrangeiros por cartas. E eu não sabia o poder que isso poderia ter.

Hoje temos aqui em casa uma pequena coleção de 7 postais da Olga, que começou em meados de 2015. E garanto que, apesar de não ser tão prático (nem barato) enviar um cartão postal de um continente a outro, é muito mais legal do que ter mensagens online na tela do seu celular. Cada cartão tem uma grossura, uma textura diferente e vem de um lugar diferente do outro.

Enquanto tivemos que atualizar a Olga dos endereços em que eu e a Bia estávamos morando (São Paulo, Curitiba, São Paulo de novo e agora em São José dos Campos), nós recebemos cartões postais de Moscou (Rússia), Estocolmo (Suécia), Atenas (Grécia), Londres (Inglaterra), Nova Iorque (EUA) e Lisboa (Portugal). É, se a gente viaja dentro do Brasil, a Olga viaja pelo mundo inteiro mesmo! E cada um dos postais veio numa época e com uma história diferente da vida dela (e da nossa).

Infelizmente ainda não enviamos nenhum postal de volta para a Olga. Talvez por preguiça ou por falta de hábito mesmo. Mas se é tão legal receber, por que não mandar também? São essas coisas que vamos levar e guardar pra sempre, onde quer que a gente more.

Aproveite pra enviar um cartão postal para quem está longe também, tenho certeza que quem receber vai gostar da sua escrita a caneta que você não pratica desde a escola. Ou de saber que você dedicou um tempo do seu dia tão corrido para enviar uma lembrança a ela. Se não quiser mandar um cartão, pode ser uma carta então. Talvez justamente por ser algo um pouco mais complicado de se fazer do que mandar uma mensagem no WhatsApp, é que tenha tanto valor.

Juntamos Sagitário e Aquário e olha no que deu!

Publicado em Cotidiano, Morando Junto
Sagitário e Aquário

Poucas coisas no mundo devem ser mais doidas do que o casamento de uma sagitariana com um aquariano. Estávamos eu e a Bia conversando sobre nossos dois anos e meio juntos e paramos pra pensar sobre tudo que já fizemos até aqui. Enquanto muitos amigos que estão num relacionamento com a mesma quantidade de tempo têm histórias bem legais pra contar, a gente também tem as nossas, mas um pouco mais fora do comum do que o normal. Acompanhem um pouco do que já passamos:

Em janeiro de 2015, antes de começarmos a namorar, nós tínhamos o costume de nos encontrar na Avenida Paulista e ficar conversando no vão do Masp. Bom, acontece que um dia estávamos muito cansados e resolvemos deitar ali no chão do Masp mesmo, na parte coberta. E foi lá que eu pedi a Bia em namoro. Que romântico, né?

Logo nos primeiros meses juntos, estávamos pensando em nos mudar para o Uruguai. Mas como não somos tão loucos assim, nós só resolvemos pedir demissão e nos mudar pra Curitiba mesmo. Sem emprego, sem casa e com apenas seis meses de namoro. E acreditem, até que deu certo. Ficamos as três primeiras semanas morando no quarto do Erick, nosso amigo, até conseguirmos alugar um apartamento. Moramos em Curitiba por um ano e começamos projetos como o Sagiquário, a página Thiago Dalleck – Fotografia e o próprio Dizcorrendo.com, até que…

Resolvi pedir demissão do emprego em que estava, literalmente de uma hora pra outra. Decidimos que voltaríamos pra São Paulo pra trabalhar com fotografia, para que pudéssemos ser livres das amarras dos escritórios e do cartão de ponto. Legal, conseguimos isso, mas ficamos uns três meses jantando miojo.

O tempo foi passando e a nossa carreira como fotógrafos foi melhorando. Conhecemos São Paulo com outros olhos e conseguimos enxergar beleza além do cinza e dos prédios de sempre. Mas como a gente não sossega, também resolvemos oficializar o casamento no cartório e demos entrada no visto permanente para morar no Canadá.

Acabou? Não! Mudamos para São José dos Campos (a terceira mudança em menos de dois anos). São Paulo era bom, mas já estávamos cansados de tanta gente e de tanta correria; queríamos um pouco de sossego. E, apontando o dedo no mapa pra achar uma cidade legal pra morar, mais uma vez nos mudamos sem emprego nem conhecidos por aqui. Mas como a vida tem sido boa com a gente, tudo se encaixou mais uma vez.

Tudo isso aconteceu de janeiro de 2015 pra cá, e nós não nos arrependemos de nada. Fizemos tudo que queríamos fazer, ainda que isso tenha implicado em demissões, mudanças (que são sempre exaustivas) e noites dormindo em colchão inflável furado. Graças a ajuda de familiares, conseguimos mobiliar nosso apartamento em Curitiba e construir nossa vida juntos.

E independente se o próximo destino for o Canadá ou o interior da Bahia, eu tenho certeza que eu vou estar sempre com ela. E, dia após dia, seremos felizes.