Os Postais da Olga

Publicado em Cotidiano
Postais da Olga

Em 2013 eu fui fazer um intercâmbio na Oceania. Lá na Nova Zelândia, no país dos hobbits e do rugby, eu conheci a Olga, uma menina de Moscou que foi morar na mesma casa de família em que eu estava hospedado.

Olga ficou apenas um mês em Auckland, a maior e mais famosa cidade da Nova Zelândia. Estudávamos na mesma escola e morávamos na mesma casa, então eu era quase como um irmão mais velho dela (não tão mais velho, pois na época eu tinha 22 anos). Como todos os intercambistas eram muito próximos, também estávamos no mesmo círculo de amizades e ela sempre foi muito simpática e divertida com todo mundo – enquanto eu sempre fui o ranzinza chato, até mesmo em inglês.

Assim como aconteceu com a maioria esmagadora dos amigos que fiz em outros países, acreditava que perderia o contato com a Olga logo que ela fosse embora. Mesmo que continuássemos curtindo fotos uns dos outros no Instagram e no Facebook, dificilmente passaria disso para uma conversa maior.

O que eu não previa era que a Olga teria um hábito quase peculiar nos dias de hoje: enviar cartões postais. Talvez seja um costume dos europeus, não sei, ou só algo que ela goste de fazer mesmo. Já conheci pessoas que fizeram intercâmbio bem antes de mim, numa época antes até da internet, e que mantiveram contato com os amigos estrangeiros por cartas. E eu não sabia o poder que isso poderia ter.

Hoje temos aqui em casa uma pequena coleção de 7 postais da Olga, que começou em meados de 2015. E garanto que, apesar de não ser tão prático (nem barato) enviar um cartão postal de um continente a outro, é muito mais legal do que ter mensagens online na tela do seu celular. Cada cartão tem uma grossura, uma textura diferente e vem de um lugar diferente do outro.

Enquanto tivemos que atualizar a Olga dos endereços em que eu e a Bia estávamos morando (São Paulo, Curitiba, São Paulo de novo e agora em São José dos Campos), nós recebemos cartões postais de Moscou (Rússia), Estocolmo (Suécia), Atenas (Grécia), Londres (Inglaterra), Nova Iorque (EUA) e Lisboa (Portugal). É, se a gente viaja dentro do Brasil, a Olga viaja pelo mundo inteiro mesmo! E cada um dos postais veio numa época e com uma história diferente da vida dela (e da nossa).

Infelizmente ainda não enviamos nenhum postal de volta para a Olga. Talvez por preguiça ou por falta de hábito mesmo. Mas se é tão legal receber, por que não mandar também? São essas coisas que vamos levar e guardar pra sempre, onde quer que a gente more.

Aproveite pra enviar um cartão postal para quem está longe também, tenho certeza que quem receber vai gostar da sua escrita a caneta que você não pratica desde a escola. Ou de saber que você dedicou um tempo do seu dia tão corrido para enviar uma lembrança a ela. Se não quiser mandar um cartão, pode ser uma carta então. Talvez justamente por ser algo um pouco mais complicado de se fazer do que mandar uma mensagem no WhatsApp, é que tenha tanto valor.

Juntamos Sagitário e Aquário e olha no que deu!

Publicado em Cotidiano, Morando Junto
Sagitário e Aquário

Poucas coisas no mundo devem ser mais doidas do que o casamento de uma sagitariana com um aquariano. Estávamos eu e a Bia conversando sobre nossos dois anos e meio juntos e paramos pra pensar sobre tudo que já fizemos até aqui. Enquanto muitos amigos que estão num relacionamento com a mesma quantidade de tempo têm histórias bem legais pra contar, a gente também tem as nossas, mas um pouco mais fora do comum do que o normal. Acompanhem um pouco do que já passamos:

Em janeiro de 2015, antes de começarmos a namorar, nós tínhamos o costume de nos encontrar na Avenida Paulista e ficar conversando no vão do Masp. Bom, acontece que um dia estávamos muito cansados e resolvemos deitar ali no chão do Masp mesmo, na parte coberta. E foi lá que eu pedi a Bia em namoro. Que romântico, né?

Logo nos primeiros meses juntos, estávamos pensando em nos mudar para o Uruguai. Mas como não somos tão loucos assim, nós só resolvemos pedir demissão e nos mudar pra Curitiba mesmo. Sem emprego, sem casa e com apenas seis meses de namoro. E acreditem, até que deu certo. Ficamos as três primeiras semanas morando no quarto do Erick, nosso amigo, até conseguirmos alugar um apartamento. Moramos em Curitiba por um ano e começamos projetos como o Sagiquário, a página Thiago Dalleck – Fotografia e o próprio Dizcorrendo.com, até que…

Resolvi pedir demissão do emprego em que estava, literalmente de uma hora pra outra. Decidimos que voltaríamos pra São Paulo pra trabalhar com fotografia, para que pudéssemos ser livres das amarras dos escritórios e do cartão de ponto. Legal, conseguimos isso, mas ficamos uns três meses jantando miojo.

O tempo foi passando e a nossa carreira como fotógrafos foi melhorando. Conhecemos São Paulo com outros olhos e conseguimos enxergar beleza além do cinza e dos prédios de sempre. Mas como a gente não sossega, também resolvemos oficializar o casamento no cartório e demos entrada no visto permanente para morar no Canadá.

Acabou? Não! Mudamos para São José dos Campos (a terceira mudança em menos de dois anos). São Paulo era bom, mas já estávamos cansados de tanta gente e de tanta correria; queríamos um pouco de sossego. E, apontando o dedo no mapa pra achar uma cidade legal pra morar, mais uma vez nos mudamos sem emprego nem conhecidos por aqui. Mas como a vida tem sido boa com a gente, tudo se encaixou mais uma vez.

Tudo isso aconteceu de janeiro de 2015 pra cá, e nós não nos arrependemos de nada. Fizemos tudo que queríamos fazer, ainda que isso tenha implicado em demissões, mudanças (que são sempre exaustivas) e noites dormindo em colchão inflável furado. Graças a ajuda de familiares, conseguimos mobiliar nosso apartamento em Curitiba e construir nossa vida juntos.

E independente se o próximo destino for o Canadá ou o interior da Bahia, eu tenho certeza que eu vou estar sempre com ela. E, dia após dia, seremos felizes.

A verdade sobre a nostalgia

Publicado em Cotidiano, Crônicas
A verdade sobre a nostalgia

Nostalgia e saudade são primas distantes? Existe crise dos 25 anos? No meu caso, nunca é tarde para se achar um velho ultrapassado.

Em fevereiro do ano passado completei 25 carnavais, literalmente, afinal nasci na semana do carnaval de 1991. “Puxa, 1991, como você é novo!” É, eu ainda nem entro na balada sem documento e mal tenho barba, mas começo lentamente a sentir o peso de estar ficando velho. E ter feito 25 anos pesou muito mais do que agora, com 26. Quando eu percebi que quem nasceu em 2000 já tem 17 anos e mal sabe o que é internet discada ou fax, eu acabei entrando num buraco negro de nostalgia e tenho a impressão de que nunca mais vou sair dele.

Comecei lembrando de coisas antigas que fizeram parte da minha infância, como mimeógrafo, telefone de disco, vitrola, ficha telefônica, VHS que vinha junto com o jornal e os tazos. E olha que se você for dos anos 80 pra trás, você deve achar que isso tudo nem é tão velho assim. Aí eu parei pra assistir uns vídeos do Canal Nostalgia e pouco depois estava chorando como uma criancinha enquanto via trechos dos episódios do Chapolin e de desenhos da extinta Rede Manchete. Nem preciso falar do que sinto quando bato o olho em um livro da coleção Vagalume ou escuto alguma música clássica dos anos 90 (alô Raça Negra!).

Nostalgia Anos 90
Oh, meu amor, não fique triste… Saudade existe pra quem sabe ter

E o que eu refleti sobre tudo isso?

Quase nada, porque não sei se há muito o que refletir sobre a nostalgia. Não é exclusividade minha senti-la nem da minha geração. Os anos vão passando e tudo que a gente mais quer é um cobertor no sofá às 9h pra ver TV Globinho desde o começo. Falar em crise dos 25 parece tão relevante quanto dizer “na minha época” quando você tem 12 anos. Basicamente faz eu me sentir num limbo entre a juventude e o mundo adulto. É a idade em que você ainda lembra o nome de 150 pokémon enquanto faz um freela no sábado à noite.

Pensando lá na frente, eu não queria me tornar o vovô chato que fica contando histórias da adolescência, mas sei que vai ser inevitável. Porque eu sei que é insuportável quando eu começo a lembrar das viagens que fiz alguns anos atrás ou das peripécias da infância. Eu vou contar cada detalhe. Tentarei lembrar do nome do dono da pousada daquela viagem pra praia. E não bastasse isso, eu tenho um sério problema de memória, então vou considerar que você ainda não ouviu minha história e, mesmo sob protestos, vou contá-la pela décima vez. Ou seja, provavelmente serei o vovô de suéter que reúne os netos pra repetir a história do Natal do século passado.

Mas não, não é saudade. A nostalgia é mais a vontade de reviver o passado do que sentir falta dele.