A felicidade que tanto procurei

Publicado em Cotidiano, Crônicas
A felicidade que tanto procurei

Aquele sábado de inverno, às 17h43. Esse momento em que o sol já está começando a ficar cansado e vai se despedindo de mais um dia. O céu se transforma numa mistura de laranja com lilás. As pessoas começam a se recolher para suas casas e os pássaros voltam aos seus ninhos.

Nós estamos no sofá, assistindo qualquer coisa. Daqui uns anos, talvez a gente nem se lembre do que costumávamos assistir, mas vamos nos lembrar de que estávamos juntos, felizes. A pipoca acaba duas vezes, mas tudo bem, tem um bolo quase pronto. Tem café também. A chaleira apita, o pó de café já está preparado pra receber a água – 3 colheres pequenas pra dois copos, é o suficiente. O filme que está passando é repetido, como sempre. Listas e listas de filmes pra ver e a gente sempre escolhe os mesmos, já sabemos todos as falas de cor.

Tá tudo tão certo que parece que alguma coisa tá errada; acho que nos acostumamos a desconfiar da felicidade. Como nos filmes que assistimos, ansiamos pela angústia do clímax. Não nos sentimos merecedores, mas talvez seja o karma nos recompensando pelos dias passados.

Tem dias em que acordo tão contente que mal sobra espaço pra reclamar do frio.

O futuro atormenta um pouco. Não o futuro, mas as hipóteses. Antes dos créditos do filme, começamos a falar. A mão que segura a caneca de café tamborila os dedos pela porcelana. Duas mentes jovens e inquietas planejam a felicidade. A próxima viagem dos sonhos, o trabalho ideal, os anos que virão, a educação dos filhos. Em algum ponto em que eu não percebi, a melancolia latente deu lugar aos dias de paz.

Mal sabemos que a felicidade não se planeja. Ela não se almeja, não se conquista, tampouco se perde. A felicidade que tanto procurei está no presente e é independente dos nossos desejos. Se houveram momentos em que quisemos abdicar da alegria, que daqui pra frente nós queiramos apenas sorrir.

Afinal, a felicidade que tanto procurei está aqui, olhando para mim, sorrindo.

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2 thoughts on “A felicidade que tanto procurei

  1. Sou do tipo que desconfia da felicidade. Deve ser algum método de proteção. Melhor desconfiar que ser surpreendida com a decepção, quando eu menos esperar.
    Belo texto, Dalleck. Beijos.

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