Quando eu aprendi a amar

Publicado em Cotidiano, Crônicas
Quando aprendi a amar

Há alguns anos, eu vivi um período de muita dor. Achei que iria enlouquecer ou sofrer um dano irreparável, mas consegui escapar. Não saí ileso, mas saí mais forte. Transformei a dor em um professor, que me ensinou a lutar todos os dias contra aquilo que é mais difícil de superar: os próprios pensamentos.

Ainda tendo me fortalecido, sentia-me fraco, como alguém que nadou por dias e venceu o oceano, mas chegou exausto na praia. Eu estava exausto de dizer para mim mesmo: você consegue, continua tentando que vai passar. Eu só queria não precisar me preocupar, queria poder acordar e ir dormir com a cabeça tranquila, sem medos constantes de me olhar no espelho e ver uma face pálida, sem vontade alguma de sair da cama.

Hoje, no entanto, mais me orgulho do que me envergonho pelo que passei. O que precisamos, na maioria das vezes, é de tempo para nos perdoar. Entender que os erros precisam ser refletidos, mas que também precisam ser aceitados. Aceitar um erro não é permitir que ele volte a acontecer, mas é permitir se sentir humano. Hoje tenho orgulho das cicatrizes que acumulo, ainda que eu não faça questão de expô-las a todo instante.

Entre dores e cicatrizes, eu aprendi a amar. Tenho comigo a pessoa mais especial que a vida poderia colocar ao meu lado; uma mulher que vai passar todos os dias sendo o motivo principal das minhas alegrias, a razão de abrir os olhos de manhã e me sentir completo. Também aprendi a amar tudo e todos que me rodeiam. É difícil, eu sei, mas para que a nossa experiência na Terra seja bem aproveitada, o primeiro passo é amar incondicionalmente. Amar as pessoas, que estão passando por dificuldades internas e externas tão complicadas quanto as nossas, e amar os animais e todos os seres que dividem esse planeta conosco. Precisamos amar quem está perto de nós e ter compaixão por quem está longe e nunca vamos conhecer de fato. O amor é tão importante para quem ama quanto para quem é amado.

Eu tentei aprender a amar por muito tempo, mas percebi que só se aprende quando, ironicamente, se desiste de tentar. Quando eu aprendi a amar a mim mesmo, percebi que o sentimento do amor só nos preenche por completo quando desistimos de parecer melhores do que somos. O amor que aprendi a sentir por mim mesmo veio puramente pela vontade de viver aceitando que não sou perfeito, que vou ter dificuldades em muitas coisas, mas que também terei facilidades em outras. Quando o peso do mundo escorregou das minhas costas, me olhar no espelho deixou de ser um fardo – passou a ser um alívio, motivo de riso despretensioso.

Aprender a amar é importante para o processo de não se levar tão a sério. E vice-versa.

Se precisar passar por isso, passe. Será gratificante.

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