O dia em que fui atacado por galinhas

Publicado em Cotidiano

Alguma vez na sua vida, você já foi atacado por aves? Bom, eu já. Duas vezes. Sempre tive um certo receio de cães por causa de traumas de infância, mas medo de pássaros e galinhas é uma experiência nova na minha vida. Uma vez em 2013, quando eu fazia um intercâmbio na Nova Zelândia, fui atacado por uma gaivota enlouquecida. Lá naquele país menor do que a zona leste de São Paulo, gaivotas geralmente são enlouquecidas mesmo, mas por batata frita e por tudo que você resolver comer em locais abertos. Dessa vez, esse pássaro raivoso estava escolhendo algumas pessoas para aplicar os seus ataques mortais, e eu fui um dos sortudos. Descendo um pequeno morro em direção à praia, tive que ficar desviando de rasantes assassinos sobre minha cabeça. Não bastasse o drama, ainda tropecei e terminei a descida rolando, enquanto meus amigos riam da minha cara. A partir daí, peguei certo ódio (e medo) de gaivotas.

Gaivota
Me dá uma batata frita, pelo amor de Deus!

Já o mais recente caso aconteceu no último sábado, quando eu e a Bia fomos ao Parque da Água Branca aqui em São Paulo pra fazer um ensaio fotográfico com uma gestante. É ótimo trabalhar aos fins de semana nos parques, com os clientes sempre muito felizes e bem-humorados. Mas você já foi ao Parque da Água Branca? Você sabe a quantidade de galinhas que existem lá? A gente não sabia.

Logo que eu vi uma galinha atravessando a rua na frente do parque, eu já sabia que tinha alguma coisa estranha acontecendo. Assim que entramos no parque e vimos uma espécie de Parque dos Dinossauros em miniatura, fiquei preocupado. Primeiro porque seria quase impossível fazer fotos sem que aparecesse nenhuma galinha, galo, pintinho, pato ou pavão (sim, tinham todas essas aves soltas lá, além das pombas). Segundo porque eu não confio muito na minha atenção ao meu redor; eu poderia facilmente pisar numa galinha por acidente e receber uma vingança mortal de todas as outras. Mal eu sabia que o problema não viria dos meus pés, mas justamente das minhas mãos.

Antes da nossa cliente chegar, fomos dar uma volta no parque e conhecer melhor os lugares pra saber exatamente onde iríamos fotografar. Nós estávamos levando, além da mochila com os equipamentos, uma sacola amarela bem grande com uma saia de tule e alguns acessórios dentro. E esse foi o motivo do meu desespero. Imagina um cachorro faminto que escuta qualquer embalagem sendo aberta e já pula no seu colo pra ver o que é. Basicamente, foi isso que aconteceu com a sacola e as galinhas. Por onde eu andava, dezenas de galinhas me seguiam achando que eu carregava um saco gigante de milho ou de pão nas mãos, já que muitas velhinhas vão para o parque pra alimentá-las. Fui suando frio, a Bia dizendo pra eu me acalmar, os patos com olhos assustadores me encarando, a sacola farfalhando cada vez mais alto. Tô ferrado.

Chegamos numa bifurcação com alguns seguranças e funcionários da limpeza conversando. A gente precisava saber onde era a administração do parque pra pegar uma autorização e resolvemos perguntar a eles. Assim que eles indicaram o caminho e demos o primeiro passo, foi quando o meu sentido aranha despertou e eu percebi o perigo iminente. Um pato maior que um rottweiler (pelo menos na minha cabeça) escutou o barulho da sacola e veio a passos lentos, tentando se manter discreto. Galinhas surgiram da grama, de trás das árvores, de debaixo do banco e de todos os lugares possíveis do parque e foram, como zumbis, se aproximando de mim e da sacola. Os galos pararam de disputar o poder entre si e se uniram aos outros bichos. Eu engoli seco e avisei a Bia: “não dá pra ir, travei”.

Com certeza, agora eu sei a sensação de um apocalipse zumbi (ou de estar sozinho à noite na cracolândia). Você fica encurralado, dando passos de costas o mais devagar possível e já começa a imaginar o seu fim. Tudo bem, eu sabia que as aves não queriam a minha vida, só a suposta comida que havia na sacola. MAS NÃO TINHA COMIDA, SÓ UMA SAIA DE TULE! Diz a Bia que eu quase joguei a sacola pra elas mesmo, e eu acho que é verdade. Eu só queria sair dali. A moça da limpeza começou a rir e a tentar espantar as galinhas, a Bia me chamava pra gente ir por outro caminho. Mas não existia mais outro caminho. As mais de trinta galinhas já tinham me rodeado quase por inteiro e seus bicos afiados e sedentos por sangue (pelo menos na minha cabeça) me deixavam cada vez mais nervoso.

O único caminho que restava era atrás de mim, que por acaso era o banheiro feminino. Mas como eu aprendi em The Walking Dead, num apocalipse zumbi alguns conceitos como roubo de lojas e banheiro feminino não existem mais, então aquele lugar se resumiu a um refúgio para mim. Não hesitei e logo entrei no banheiro, na parte das pias. Que sorte que não tinha ninguém lá dentro, porque eu já estava passando vergonha o suficiente com aquela cena. Um galo veio me seguindo e entrou no banheiro também. Eu já estava quase chorando, as mãos tremendo, o coração acelerado. Entrei num dos banheiros individuais e me tranquei lá. Gritei pra Bia me ajudar e ela veio rindo, afinal deve ter sido muito engraçado ver eu me borrando de medo de galinhas. Mas o meu medo era muito sério. Falei pra ela: “ou você carrega essa sacola ou eu guardo ela na mochila e levo a saia na mão“.

Saímos do banheiro feminino sem a sacola e com a saia na mão. As galinhas se acalmaram agora que não tinha mais barulho de comida grátis. Os galos não me viam mais como uma ameaça ou algo do tipo. Com o pato eu ainda tenho pesadelos. Por fim, deu tudo certo no ensaio e conseguimos fazer malabarismos pra que as aves não saíssem nas fotos (funcionou, menos nessa foto que vou deixar aqui embaixo). Mas olha, eu nunca mais quero ser atacado por galinhas. Que desespero!

Ensaio de gestante no Parque da Água Branca
Amor, quem é essa galinha atrás de você?