Por que decidimos parar de comer carne

Publicado em Alimentação, Cotidiano
Parar de comer carne

Desde que me conheço por gente sempre comi carne, como acredito que seja a realidade da maioria das pessoas. Na minha família, churrasco era sinônimo de lazer aos fins de semana na zona leste de São Paulo, regado à cerveja, refrigerante e convidados, e era luxo quando podíamos pagar um rodízio bem servido. Já a Bia nasceu em Araçatuba, interior de São Paulo e maior concentração de fazendeiros de gado do país, onde sertanejo e churrasco são quase leis imperiais – não dá pra fugir da carne na Capital do Boi Gordo.

Vegetarianismo, ao menos pra mim, era um conceito distante; veganismo era utópico. Tipo chamada do Globo Repórter mesmo: Vegetarianos! De onde eles vêm? O que comem? Como se reproduzem? Nunca convivi com nenhum adepto durante minha infância ou adolescência, nem fui incentivado na escola ou em qualquer meio a procurar sobre o assunto. Basicamente, eu mal sabia os nomes dos vegetais que eu via no mercado (não que eu saiba hoje).

Desde que eu e a Bia nos conhecemos, cozinhar se tornou uma prática muito mais comum na minha vida. A gente sempre preparou vários miojos gourmet, lasanhas congeladas e essas finezas que todo jovem que mora sozinho conhece bem. Mas a gente arriscava também. E tentávamos de tudo: pratos frios, quentes, carnes, sobremesas, requintados, mistura-tudo-e-vai-na-fé e por aí vai.

Antes mesmo da questão financeira, nós já havíamos conversado sobre a possibilidade de parar de comer carne. E como tínhamos acabado de mudar para Curitiba e estávamos morando juntos havia pouco tempo, poderíamos escolher tudo o que a gente queria e não queria ter na nossa despensa. Até que as idas ao mercado começaram a ficar mais frequentes. E a gente começou a ter que lidar mais com a seção do açougue e seus preços salgados. A carne vermelha já não fazia mais parte do cardápio, o frango foi sendo deixado de lado e só o peixe foi que continuamos comendo por mais algumas semanas. Em um mês e meio, praticamente zeramos o consumo de carne das nossas refeições.

Não que seja um processo tão simples assim, pois não adiantaria a gente trocar arroz, feijão e bife por arroz, feijão e água. Deixar de comer carne é abdicar de uma cultura carnista para descobrir um mundo de sensações (parece slogan de chiclete) que os vegetais, os grãos, as frutas e todas as milhares de combinações possíveis podem te proporcionar.

Nossos motivos foram fundamentais para tomarmos a decisão: contra a tortura e o assassinato animal, uma vez que mais de 56 bilhões de animais são mortos por humanos todos os anos. Prezando pelo meio-ambiente, o que engloba o fato de que são gastos 4 mil galões de água por dia para as refeições de uma pessoa que come carne e que as fezes dos animais são extremamente poluentes para os rios e mares. E, por fim, mas não menos importante, por nossa própria saúde (mas isso fica para um próximo post).

Já faz uns 7 meses desde então, e muita coisa mudou: começamos a sentir mais o sabor da comida, aprendemos a fazer receitas que nem imaginávamos que existiam, descobrimos fatos, dados e assistimos documentários sobre o consumo de carne que nos incentivaram ainda mais a nos dedicar a essa mudança, e nos sentimos muito mais dispostos física e mentalmente.
Hoje estamos num processo de migrar para o veganismo. Complicado? Muito mais. Mas a determinação é ainda maior.