Homem sensível é um problema?

Publicado em Cotidiano
Homem sensível

O que incomoda mais: um homem gay ou um homem sensível? Qual é o sentido em dizer que um homem é viadinho porque usa um cachecol? Qual a graça em analisar o modo como o outro se veste para perguntar se onde ele fez as compras não tinha roupa de homem? Por que chamar um são paulino de gay é uma ofensa? Por que um homem que se depila ou que faz balé ou que é cabeleireiro, vai ser, sem dúvida alguma, tachado de homossexual? Por que o homem tem tanta necessidade de julgar se um outro homem transa com mulheres ou com outros homens?

Aparentemente, é porque muitos homens consideram mulheres apenas objetos. E se você sair do clube do bolinha para se portar “como mulher”, você também vira um objeto descartável.

Mas se por um acaso você não trata mulheres como objeto, você “só está fingindo que é romântico e engana mulheres para transar com elas”. Se você diz que é gay e se relaciona com homens, o problema maior é que você “age como uma mulherzinha”. Se você faz qualquer coisa que o senso comum do macho alfa não aprove (cuidar do cabelo e da pele, assistir novelas, gostar de astrologia e de dança ou não gostar de futebol), para muitos você não é homem. Resumindo, ter comportamentos mais comumente visto por mulheres te “rebaixa” ao sexo feminino.

E não são poucos que vão julgar não. Sejam meninos de cinco anos, de 15 ou de 60, a maioria vai te olhar torto por você não seguir um comportamento hipotético que eles aprenderam ser “de homem”. Algumas mulheres, pela reprodução de um machismo enraizado, também vão dizer que “você pediu para ser julgado como gay” porque, sei lá, foi na parada gay ou porque ouve pop.

Entendam uma coisa de uma vez por todas: não existe um padrão ou um conjunto de regras para que você seja automaticamente classificado como gay. A única coisa que te faz ser gay é ter atração por pessoas do mesmo sexo. E não há nada de errado nisso (nem há nada de errado com o sangue gay).

Existem machões cheios de testorena que são gays (ou não), assim como existem homens sensíveis que gostam de poesia e de yoga e que também são gays (ou não). Existem advogados, lutadores de MMA e jogadores de rúgbi homossexuais ou bissexuais (ou héteros), assim como apresentadores de TV, taxistas e padres.

Mas sabe o que realmente incomoda a sociedade? Não é o fato de um homem se relacionar com outro homem. É o medo de ouvir a temida frase: eu sou um homem sensível. E o único jeito que as pessoas sabem lidar com o próprio medo de tudo o que é diferente é rindo e fazendo piada de mau gosto.

É, né, parece que a masculinidade é muito mais frágil do que o homem sensível.

Liniker – A bicha preta e pobre

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Liniker

Demorei a ouvir Liniker, deixei passar batido e não dei bola por todo esse tempo. Sim, me arrependi. Na semana passada, a Jout Jout fez um vídeo sobre ele/ela e foi aí que eu e a Bia finalmente paramos pra escutar as músicas e ver a sensação que é Liniker interpretando. A “bicha preta e pobre”, como se denomina, não se diz nem homem nem mulher, “é o que é” mesmo.

Liniker é aquela surpresa agradável como foi Amy Winehouse, é a potência rouca do soul como foi Tim Maia e é a singularidade original como sempre foi Ney Matogrosso. Começou a compor suas músicas aos 16, como se fossem cartas de amor que nunca tivera coragem de entregar. Nascido em Araraquara, interior de São Paulo, Liniker de Barros Ferreira Campos tem apenas 20 anos e vem de uma família de sambistas tradicionais. Além do samba, sua personalidade camaleônica – pessoal e musical – se inspira em nomes como Etta James, Nina Simone, Cartola e Tulipa Ruiz.

Em algumas entrevistas, Liniker já disse que seu corpo é um corpo político. E provavelmente foi o visual do/da artista que encantou essa geração que busca quebrar paradigmas – brincos de argola, turbante, batom, barba e vestido se encaixam harmoniosamente. Sem medo de ser julgado, ele/a afirma: “Estar vestido assim não é uma escolha, não é um personagem. Estar no vídeo, ou no show, com determinada roupa é porque me sinto à vontade com ela”.

Na lista da Billboard dos 11 lançamentos nacionais mais aguardados do ano, o futuro álbum de Liniker e os Caramelows (banda formada por Rafael Barone, Péricles Zuanon, Márcio Bortolotti, Willian Zaharanski, Renata Éffes e Bárbara Rosa) já tem nome: “Remonta”. Aqui em casa já estamos aguardando ansiosamente por mais músicas (o primeiro EP você pode escutar aqui). Seja bem-vindo/a ao coração dos brasileiros, Liniker, que os padrões sejam quebrados!