Quando a nostalgia vira saudade

Publicado em Cotidiano, Crônicas
Quando a nostalgia vira saudade

Já faz tempo, né? Há tantas coisas, há tanto tempo. Muito do que se passou nesse mundo pode ter deixado apenas um rastro pequeno no universo, mas causado marcas gigantes no espaço da memória. A menor das lembranças dói, mas tem também as que alegram. Mais ainda, tem aquelas que fazem chorar de alegria ou as que fazem rir de desespero. Lembrar é o castigo eterno a que estamos fadados enquanto seres humanos. Talvez sejamos humanos apenas porque temos a capacidade de lembrar.

Quando nostálgico, desejo ser valente o suficiente para que o passado não machuque e que seja somente um meio de teletransporte para o que já não existe. Nostalgia é admirar a passagem das horas, a dança dos dias. É escutar uma música e, sinestesicamente, sentir o cheiro do seu velho quarto; sentir o aroma de uma refeição e voltar à infância. Nostálgico é o saudosista que quer apresentar o passado para o presente e o presente aos dias antigos.

Quando embebido de saudade, o processo de verter lágrimas é instantâneo e feroz. Tem mais a ver com dor do que com recordação, da forma mais abstrata que a dor possa correr por entre as veias. Se a falta que me faz um lugar ou uma pessoa é dolorosa a ponto de lembrar, que assim seja. Que venham as noites carregadas de lembranças da voz de quem partiu e das imagens de outras décadas. E que venham sim as tristezas e os rancores, para que sejam expurgados e exorcizados – sem apego às memórias.

Quando a nostalgia vira saudade, a situação torna-se dúbia e já não se sabe mais o que alegra e o que entristece. Por mais que se assemelhem, a única precaução que é preciso tomar em relação às duas é não permitir que se misturem. E assim, continuar vivendo.

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