Livro: Capão Pecado (Ferréz)

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Ferrez - Capão Pecado

Inspiração é Black Alien, é Ferréz“. Essas são algumas das referências que o Criolo canta na música Esquiva da Esgrima. Black Alien é um rapper das antigas e Ferréz é um romancista e poeta do Capão Redondo, periferia da zona norte de São Paulo. De nome Reginaldo Ferreira da Silva (mais brasileiro impossível), Ferréz é um expoente brasileiro da literatura marginal.

Já faz alguns meses que ando lendo muito mais pelo celular do que em livros físicos. Nessas leituras diárias no trajeto do ônibus, resolvi comprar na Amazon o e-book do Capão Pecado, possivelmente o livro mais conhecido do Ferréz. Estar em Curitiba há menos de um ano tem dessas: acabo buscando mais coisas sobre São Paulo pra lembrar do lugar em que nasci e cresci (mas que não pretendo voltar a morar). E assim como viver naquela megalópole insana, a realidade do livro é um soco no estômago.

Geovás, Ratinho, Jacaré e China jogavam bilhar no bar do Joaquim e demonstraram espanto quando viram Will andando sossegado na rua de baixo, indo em direção à Cohab do Jânio. Os quatro riram quando viram Burgos passando logo em seguida, vindo como um demônio, bem na moralzinha atrás de Will. Não esperaram para saber o que ia acontecer, largaram os tacos, pagaram a ficha a Joaquim, avisaram para ele fechar o bar e cada um foi para sua casa.

Alguns minutos depois muitas pessoas já estavam em volta de Will, que estava com um ferimento na cabeça e ainda tremia; dona Maria Bolonhesa correu logo que soube do acontecido, abaixou-se, abraçou o filho fatalmente baleado e chorou, chorou, chorou…

Frase após frase, os acontecimentos vão ficando cada vez mais chocantes e pesados. Capão Pecado é um romance sem enfeites sobre o dia-a-dia dos moradores e sua procura sem fim pelo sucesso que lhes foi negado desde que nasceram. Rael – o protagonista – e Paula se envolvem num relacionamento proibido, movido por traição e o iminente risco de morte que assombra todas as pessoas que lá habitam. O bom humor e a disposição de ajudar um ao outro também aparecem na história, mas são os problemas como alcoolismo, vício em drogas e crimes que, de dentro, mostram aquilo que só vemos nos jornais.

Recomendo Capão Pecado pra quem quiser conhecer um pouco mais o Capão Redondo, berço dos Racionais, e ter uma visão do outro lado da história da periferia paulistana.

“A lua cheia clareia as ruas do Capão, acima de nós só Deus humilde, né não?”
(Racionais MC’s – Da Ponte pra Cá)

O dia em que viemos para Curitiba

Publicado em Cotidiano
Malas - Curitiba

Já contei para vocês em outro post como foi a nossa decisão (sábia decisão, eu diria) de nos mudarmos de São Paulo para Curitiba. O que vocês não sabem é como foi esse dia tão aguardado e nada planejado por nós. Juro que vou fazer um esforço extra pra lembrar de tudo com detalhes, já que a minha memória me ama e apaga automaticamente todas essas coisas bizarras do meu cérebro. Vamos lá!

Na semana da viagem nós decidimos fazer um encontro com os nossos amigos para que pudéssemos nos despedir e matar um pouco a saudade daqueles que a gente não via há bastante tempo. A despedida aconteceu um dia antes de nos mudarmos, e a desgraceira já começou aí. Não consigo entender o motivo até hoje, mas escolhemos o bar mais quente da cidade e mesmo já sendo de tardezinha, cada minuto que a gente passava lá dentro fazia o sol brilhar mais forte lá fora e foi ficando cada vez mais abafado-insuportável-desesperador. Os amigos foram chegando e todos, sem exceção, reclamaram daquele lugar. Alguém muito sensato sugeriu que a gente mudasse os planos e partisse para outro lugar, talvez um pouco mais agradável do que aquela sala de espera do inferno. Fomos para o vão livre do MASP (nosso lugar favorito de São Paulo) e o resto da noite foi maravilhoso.

Voltamos pra casa bem animados e com os corações cheios de amor <3 Conversamos muito antes de dormir e tínhamos certeza absoluta que essa tinha sido a melhor decisão que tomamos na vida. No dia seguinte, acordamos (possivelmente atrasados), conferimos cada cantinho daquele apartamento pra ter certeza que não deixaríamos nada pra trás e partimos com a esperança de que tudo daria certo. O apartamento ficava a dois quarteirões do metrô e, antes da gente conseguir chegar lá, minha mala super gigante e pesada quebrou. No meio da rua. E não tinha cristo que conseguia ajeitar aquelas rodinhas. A solução foi arrastar a mala sem as rodinhas mesmo e seguir o nosso caminho.

Mesmo que você não more em São Paulo, eu imagino que dê pra ter uma ideia de como é o metrô daquele lugar. Pois é! O Thiago nasceu e foi criado pegando metrô, eu morei naquela cidade por mais de dez anos e nós sabíamos bem como era emocionante e complicado entrar na linha vermelha pela manhã. Ainda assim, achamos que seria uma boa ideia pegar o metrô carregando TUDO que a gente tinha. (Eu queria, por favor, que a gente fizesse um minuto de silêncio antes que eu comece a contar o resto da história. Pronto? Obrigada). Eu já estava com vontade de chorar antes mesmo de o trem começar a andar e, pra piorar, quando a gente foi fazer a baldeação pra linha azul, descemos pelo lado errado e, pra consertar esse erro inaceitável, tivemos que subir de escada com a mudança nas costas. Deu tudo certo, na medida do possível, e chegamos na rodoviária do Tietê no horário previsto.

Fonte: imagem retirada da internet

A gente não tinha comprado as passagens ainda (amadores) e já estava bem perto da hora que o próximo ônibus sairia. Quase não tinha ninguém na fila do guichê, mas bem na nossa vez, chegou um senhor puto da vida e entrou na nossa frente pra resolver o problema dele que, aparentemente, era tão importante que não daria pra esperar a gente comprar as passagens. O tempo tava ficando apertado, mas ele conseguiu resolver a pendência que o impedia de viver a sua vida tranquilamente e nós conseguimos escolher os nossos lugares e descer com tranquilidade até a plataforma. Não. Não foi assim. Na hora de pagar, a maquininha de passar o cartão quebrou e a gente ficou lá esperando por alguns minutos que pareceram uma eternidade. Saímos correndo e procurando qualquer lugar pra comprar uma água e alguma coisa pra comer durante a viagem. Descemos as escadas já impacientes e ofegantes, mas quando chegamos na plataforma o nosso ônibus nem tinha chegado ainda. Deu tempo. Ufa!

O problema foi que o ônibus não chegava nunca. Demorou muito tempo mesmo. Ninguém sabia explicar o que estava acontecendo e todos os passageiros já estavam sentados no chão jogando Uno (mentira). Depois de muito esperar, descobrimos que o motorista que nos traria pra Curitiba passou mal antes de chegar à rodoviária e precisou ficar esperando ajuda médica. Coitado! Outro motorista resgatou o ônibus no meio do caminho e seguiu a viagem. Embarcamos e foi tudo ótimo! Era o começo da nossa nova vida e estávamos emocionados (talvez o choro fosse de desespero, mas eu acho que era felicidade mesmo).

Curitiba nos recebeu com um friozinho maravilhoso. Nosso amigo Erick, que além de nos deixar morar no quarto dele por uns dias, nos buscou na rodoviária e ajudou com todas as malas. Depois de passarmos um tempo significativo tentando colocar tudo aquilo dentro do carro, seguimos para o shopping pra, finalmente, encontrar outros amigos e jantar. O carro quebrou quando a gente entrou no estacionamento (parece piada, mas não é). Jantamos todos juntos e voltamos pro carro com a esperança que ele pegaria ou que alguma alma bondosa fosse nos ajudar. O shopping fechou e ainda estávamos lá. Compramos gasolina, ligamos pra irmã, pro tio, pro pai, pro vizinho, pro segurança do shopping e ninguém deu conta de arrumar aquele carro. A solução foi deixar ele lá mesmo e seguir para o apartamento do Erick de táxi.

Já começamos a visitar apartamentos no dia seguinte e logo no segundo dia já tínhamos um escolhido. Foi amor à primeira vista! A papelada começou a ser feita, mas tinha um porém: nossas mães nos ajudariam no processo de locação e estava cada uma num canto do Estado de São Paulo. Os documentos iam de um lugar pro outro e nunca nada dava certo. Uma hora faltava documentos, na outra assinatura, na outra o que faltava era paciência mesmo. Os dias viraram semanas e nada de a gente conseguir mudar pro nosso apartamento. Quando finalmente tudo se acertou, nos mudamos e descobrimos que a gente não tinha pedido pra ligar o gás (não ia dar pra tomar banho quente e o prazo pra ligação era de cinco dias). A gente também não tinha cama. Nem colchão. Nem cobertores. Nem fogão. Nem geladeira. Nem comida. Nem saúde pra aguentar tanto perrengue.

Agora, depois de nove meses dessa saga, estamos recuperados. Nove meses. Essas duas pessoas morando juntas por nove longos meses. Dá pra imaginar o tanto de bizarrices que já aconteceu? Conto pra vocês (em doses homeopáticas. Prometo) num próximo post.

Mudamos para Curitiba

Publicado em Cotidiano, Morando Junto
Morando junto

Eu já li alguns posts emocionantes e ouvi relatos super fofos de casais que decidiram, depois de longos anos de namoro, que era a hora de morar junto. Essa é uma decisão importante e tem um peso enorme na vida de qualquer pessoa. Por isso, é necessário analisar com cuidado os prós e os contras, fazer um planejamento financeiro minucioso, começar uma preparação individual e psicológica pra dar conta dessa mudança tão grande, e mais um monte de questões que devem ser levadas a sério nesse momento.  Mas com a gente não foi assim, não mesmo. Pra falar bem a verdade, não passamos nem perto disso. Sim, foi uma maluquice sem tamanho e eu vou explicar como aconteceu.

O Thiago já morava sozinho (na verdade ele dividia o apartamento com um amigo. Mas não morava com os pais, o que na minha cabeça já é morar sozinho) e, como esperado, eu frequentava bastante aquele lugar. Numa dessas visitas, nós estávamos almoçando e no meio de uma conversa despretensiosa decidimos que quando a gente fizesse dois anos de namoro, poderíamos começar a pensar em morar juntos. Na semana seguinte decidimos que dois anos era tempo demais, um ano seria suficiente. Nessa mesma semana, resolvemos que a gente queria sair de São Paulo, conhecer outros lugares, respirar novos ares, sair daquela agitação e tentar um lugar mais tranquilo. Nós dois, quase que ao mesmo tempo, sugerimos Curitiba. Não deu pra negar, tínhamos motivos diferentes, mas era suficiente para que a gente quisesse tentar. “Então, beleza! É isso. Ano que vem nós vamos embora pra Curitiba”.

Vida que segue. O próximo ano ainda estava longe de chegar e nosso namoro ainda estava bem no comecinho, muita coisa podia mudar ate lá. A cobrança era uma coisa que não existia no nosso relacionamento (e não existe até hoje). Se algo desse errado, tudo bem, mas já começamos a pesquisar sobre a nova cidade e abrir um ou outro anúncio de apartamentos que estavam para alugar. Era só pra ter uma noção de quanto a gente ia gastar, como eram os apartamentos, se era muito diferente de São Paulo, etc. Pouco depois disso eu fiquei doente (tive uma laringite ou faringite bacteriana aguda do capeta) e acabei ficando no apartamento do Thiago por uns dias. Foi a primeira vez que passamos mais do que um final de semana juntos. A gente se conheceu bastante naquele período, as DRs aumentaram e descobrimos detalhes um do outro que não dava nem pra imaginar. Foi tão maravilhoso que esses longos períodos no apartamento dele começaram a ficar mais frequentes e todas as vezes que eu precisava ir embora meu coração apertava. Talvez isso nunca tenha sido falado, mas eu sabia que seria o ano mais longo de todos e eu queria muito que ele passasse bem rápido.

A gente precisava avisar o Leandro (amigo do Thiago que morava no apartamento) que nós nos mudaríamos no ano que vem e que infelizmente ele teria que procurar outro lugar pra morar. Foi uma decisão complicada, acho que a mais complicada de todas. Se o Thiago falasse com ele, os nossos planos se tornariam mais reais e foi aí que começamos a pensar que “Mano, talvez isso aconteça mesmo”. Decididos, fizemos o comunicado e pra nossa surpresa ele se mudou dias depois. Mais surpreendente ainda foi ouvir da minha sogra e da minha mãe um “Vocês estão esperando o quê?”. Uau, tínhamos o apoio delas e agora era uma decisão nossa e só nossa. O Thiago pediu demissão. Eu me mudei oficialmente para o apartamento dele com tudo que eu tinha. Ajudei a empacotar o resto das coisas. Nos mudamos depois de duas semanas.

Chegamos na cidade com algumas malas, uns livros, o nosso computador e a boa vontade de um amigo que nos deixou morar no quarto dele por uns dias (que viraram semanas. Eu conto em outro post como foram os primeiros dias aqui em Curitiba. Preparem-se pra rir. Ou pra chorar. Até hoje eu não sei se foi trágico ou cômico). A gente não tinha apartamento, nem emprego e mal sabíamos como pegar um ônibus sem a ajuda das pessoas. Dizem que os Curitibanos são frios, fechados e difíceis de lidar. Isso pode até ser verdade em alguns casos, mas a nossa experiencia nessa terra gelada foi de muito amor. Todos foram muito solícitos e carinhosos, desde a mulher que deixou de seguir o seu caminho pra nos levar até o café que estávamos procurando, até o taxista que parou o carro e ligou do próprio celular pra síndica do condomínio pra ver se ela podia alugar a casa que estava vazia por um preço mais baixo pra gente. Talvez tenha sido sorte, mas eu prefiro acreditar na bondade das pessoas mesmo.

Já estamos perto de completar um ano morando juntos e depois de muito perrengue, tudo está mais do que certo por aqui. Agora é a hora de refletir sobre essa loucura que foi o nosso último ano e sossegar. Há! Mentira. A gente não consegue ficar parado e já estamos planejando um próximo destino. Oremos!