Quando a nostalgia vira saudade

Publicado em Cotidiano, Crônicas
Quando a nostalgia vira saudade

Já faz tempo, né? Há tantas coisas, há tanto tempo. Muito do que se passou nesse mundo pode ter deixado apenas um rastro pequeno no universo, mas causado marcas gigantes no espaço da memória. A menor das lembranças dói, mas tem também as que alegram. Mais ainda, tem aquelas que fazem chorar de alegria ou as que fazem rir de desespero. Lembrar é o castigo eterno a que estamos fadados enquanto seres humanos. Talvez sejamos humanos apenas porque temos a capacidade de lembrar.

Quando nostálgico, desejo ser valente o suficiente para que o passado não machuque e que seja somente um meio de teletransporte para o que já não existe. Nostalgia é admirar a passagem das horas, a dança dos dias. É escutar uma música e, sinestesicamente, sentir o cheiro do seu velho quarto; sentir o aroma de uma refeição e voltar à infância. Nostálgico é o saudosista que quer apresentar o passado para o presente e o presente aos dias antigos.

Quando embebido de saudade, o processo de verter lágrimas é instantâneo e feroz. Tem mais a ver com dor do que com recordação, da forma mais abstrata que a dor possa correr por entre as veias. Se a falta que me faz um lugar ou uma pessoa é dolorosa a ponto de lembrar, que assim seja. Que venham as noites carregadas de lembranças da voz de quem partiu e das imagens de outras décadas. E que venham sim as tristezas e os rancores, para que sejam expurgados e exorcizados – sem apego às memórias.

Quando a nostalgia vira saudade, a situação torna-se dúbia e já não se sabe mais o que alegra e o que entristece. Por mais que se assemelhem, a única precaução que é preciso tomar em relação às duas é não permitir que se misturem. E assim, continuar vivendo.

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O que eu gostaria de ter dito ao meu pai

Publicado em Cotidiano
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Semana passada, assistimos o filme 50/50. Depois de muitas lágrimas derramadas por mim e pela Bia, eu cheguei a duas conclusões assim que o filme acabou:

  1. O Joseph Gordon-Levitt é a personificação da tristeza. Desde 500 Dias com Ela, ele já mostrava seu talento com personagens niilistas/depressivos.
  2. Preciso lembrar de nunca mais assistir filmes que tenham câncer como tema central.

Para quem não sabe, perdi meu pai quando eu tinha 20 anos – ele faleceu devido a complicações de um câncer na boca, que acabou se tornando metástase (o tumor se espalhou por outras áreas do corpo). Nesse mês, no dia 23, faz cinco anos que ele morreu. E todos os dias, principalmente quando assisto ou leio histórias de pessoas com doenças terminais, fico pensando que mais difícil do que a morte em si, é a espera pela morte; seja da pessoa doente ou daquelas que estão ao seu redor. Foram seis meses, entre a descoberta do tumor e o falecimento, que eu passei tendo muitas conversas e momentos com ele que nunca vou esquecer, mas ainda assim havia muitas coisas que eu gostaria de ter dito ao meu pai.

A primeira delas com certeza seria dizer o quanto eu o amo. Claro que eu já tinha falado isso muitas vezes, mas ainda era menos do que eu gostaria. E mais do que simplesmente dizer “eu te amo“, eu gostaria que ele soubesse o quanto isso é grande e verdadeiro. Meu pai tinha defeitos como qualquer outro ser humano, mas ele era uma ótima pessoa e precisava se sentir amado. E eu o amo muito.

Não é algo que eu pudesse ter dito, mas outra coisa que eu gostaria de ter feito mais com o “Seu Arildo” era ter tirado fotos. Passei por uma fase na adolescência me sentindo péssimo com minha aparência, principalmente por ter dobrado de peso em poucos anos. Isso fez com que eu tivesse muita vergonha de sair em fotos, inclusive com minha família. Hoje guardo poucos registros ao lado do meu velho, mas se eu pudesse voltar atrás, tiraria uma foto por dia.

Eu teria, também, conversado mais com meu pai. Eu teria dito tudo o que eu penso sobre a vida, quais eram os meus planos para o futuro, quais os meus medos e anseios, o que acho das pessoas, o que penso sobre a morte. Nos seis meses de luta contra o câncer, eu perguntaria se ele tinha medo, do quê tinha medo, se estava preparado para o que quer que acontecesse, se ele se arrependia de algo na vida. Basicamente, eu teria tido meu pai mais perto, compartilharia segredos e dúvidas, seria o seu melhor amigo.

Acredito que fui um bom filho para ele, como ele foi um pai muito bom para mim – esforçado em sempre dar o melhor de si e muito amoroso. Hoje, vivendo meus 25, tenho sempre em mente tudo o que ele me ensinou e tento reproduzir isso no relacionamento que tenho com a Bia, com minha mãe, irmãs e sobrinhas. Tento aproveitar cada momento com as pessoas que amo, ainda que eu não saiba muito bem como expressar tudo o que sinto. Imagino que realmente amanhã alguém muito próximo pode acabar indo embora antes mesmo de dar tempo de me despedir, então vivo como se cada dia fosse o último.

É um pouco clichê, eu sei, mas eu prefiro acreditar e pensar assim. Hoje é a saudade que me acompanha, mas é justamente ela que mantém o meu pai mais vivo do que antes.